FILOSOFLECHAS PARTE I

A-E

MÁGICA DO TEMPO


I

Era irritante a tirania do relógio
― a dita dura do relógio ―
tiquetaqueando, tiquetaQUERENDO.

A criança naturalmente criançava
Reis Rainhas Índios Japoneses Fadas Espadas Atabaques
corisculavam sucessivamente.
Era uma vida.
E a criança viveu, enquanto assim podia,
a vida de verdade que vivia nela.

Até que o relógio decretou degredo:
― Não faças isto ou aquilo! ― era a voz do chicote.
Espanto.

Almoço Tic Tac
Jantar Tic Tac
Corte de cabelo Tic Tac
Visitas Tic Tac
Festas Tic Tac
Acordar Tic Tac
Dormir Tic Tac

E um dia a hora horou o tempo de ex-tudo.
Jardim da infância.
Relógio: a professora jovem canta no compasso.
― Melhore a letra!
Histórias longe e longas, tão vazias de sonhos,
tão carentes de vida.
contadas profissionalmente pela professora.
Hora do recreio.
A professora disse: ― Hora do Compasso.
E relogiava a aula religiosamente.

Hora de Entrada. ― É proibido isso!
Hora de Histórias. ― Senta e fica quieto!
Hora de Merenda. ― Cala a boca, peste!
― Melhorou a letra!
Tiquetaqueante o estômago digeria.

Primeiro ano Tic Tac
Segundo ano Tic Tac
Terceiro ano Tic Tac
Quarto ano Tic Tac
Diploma Tic Tac
Orador Tic Tac

Hora da saída.
Cronometrix Cronometra Horæ Ampulhætarum.
O tempo nem tempava
― era registrado
e obedecido.

― É proibido não proibir 
ensina a professora.

Ginásio. Colegial.

Preceitos antigos reclamam seu delírio de ex-flor de lírio.
A menina sem hora nem embora
Furou seus olhos cansados de contar minutos.
E o corpo acarinhava o que de corpo havia
sem hora de ir embora ou 
medo de em tarde ser.

O tempo o percorria
o pêndulo pendia petulante avante
e nada contava ou somava -
nem dividia.

A professora explica:
― Mulher é bicho falso.
E Tiradentes sobe o cadafalso.
O relógio da igreja cantava a ave-maria.

A vida se derrama no corpo embalsamando tudo.
Era a Hora do Homem.
Na moita, a sensação então rompia.
Plenilúnio de aurora inundando o cais.
Então, o relógio disse: ― É proibido.
Estás chegando tarde à casa de teu pai.

Lâmina de luz luziluzindo a alma.
Cântico de encontro entorpecendo o tímpano.

O carrasco bem que avisa:
 É proibido amar, viver, e tudo enfim.
― É proibido o fim ― esclareceu-lhe o padre.
Não te mates, não, porque é sacrilégio

e quer papar-te gordo a gula do carrasco.

― É proibido o asco ― insiste a mamãezinha.
Meu bem, sorri, meu bem,
que hoje é carnaval, natal e tem festinha,
que hoje é ano novo, bem, imita o povo!
Senão, eu vou cortar a tua cabecinha.

II

E um dia ― depois de tempo ―
ele volta à casa velha.
(Sempre se volta um dia
quando é possível voltar.)

É possível foi preciso
voltar ao palacete abandonado
― velha casa,
aonde, agora, regressa:
(um dia, sempre se re-volta)
para saber notícias de seus fantasmas,
de fantasmas ainda vivos
palpitando pelos quartos,
velhos de velhice.
Avoengos ossos empoeirados ― estalactantes.
Estabelecidos.

Na sala, só o relogião carrancudo resistira,
e respirava a poeira dos escombros
indiferente às cadeiras, mesas, acessórios;
roídos de carunchos e castigos.

― Era um relógio ou carcereiro? ― ele pergunta.

― Eu sou a Mamãezinha, não vês o meu chicote
em minhas mãos maternas?
Mãe ou Domadora,
Padre ou Professora,
e sou o Relógio, não vês, querido estúpido?

Ele os vira e os conhecera e os comparara
e os sabia comparsas na orgia
de estrangular-lhe os dias,
capar-lhe as madrugadas.

E o Carrasco dizia:
― Sê feliz, filhinho meu!
Sou vossa mãe, sua mestra,
sou o padre da matriz,
lambe a tua cicatriz
e ainda dá graças a Deus!

III

É um relógio, um despertador.
Desperta a dor.
E ele viu.

O amor que não sobrou drenou-lhe a esperança.

São Paulo, 1972